No cinema, os objetos falam. Um trenó em Cidadão Kane, uma bola de vôlei em Náufrago, um pião em A Origem: algumas das coisas mais lembradas da história do cinema são objetos de cena, escolhidos pela direção de arte para carregar o que os personagens não conseguem dizer. Quanto mais curto o filme, mais eles precisam carregar, porque não há tempo para explicar. Descobri o quanto eles podem fazer no meu primeiro curta.
Fala, Vô! conta, em poucos minutos, uma história que dura meses: um neto preso em casa durante a pandemia, mantendo contato com o avô por vídeos. Uma rotina monótona por definição. O problema de um curta é que não há tempo para explicar nada. Então quem explica são os objetos.
Objetos que contam o tempo
Todo vídeo que o neto grava começa com ele dobrando um avião de papel. Cada avião tem um número na asa: quantos vídeos ele já mandou, que é também quantos dias ele está em casa. Ninguém diz “dia 47”. O chão vai se enchendo de aviões, e você entende. Mais tarde, os números continuam, mas passam a contar outra coisa: os dias desde que o avô se foi. O objeto não muda. O que ele conta, sim.
Um quadro branco faz o mesmo com os meses. Ele marca os dias, e os planos que o neto tinha para o ano ficam lá, interrompidos. O celular é o terceiro: grava os vídeos e traz as respostas, e o jeito como ele espera por elas diz mais sobre a ansiedade dele do que qualquer fala.
Objetos que carregam um laço
Outros objetos carregam a relação. O telescópio é como o avô ensinou o menino a enxergar o mundo de outro jeito, e ele volta na última cena, no mirante favorito dos dois. A cítara faz parte da cabana do avô desde o começo, e só no fim você descobre que era assim que ele comemorava o aniversário do neto todo ano; o neto mantém a tradição. O avião de papel também é a porta para o passado: o flashback entra por ele, e o salto no tempo nunca parece estranho.
Tem um detalhe menor de que eu gosto muito. Criança, o neto usa uma camisa azul, o mesmo azul das listras da camisa do avô. Ninguém precisa perceber. Quem percebe, sente.
Figurinos que mudam com a história
Os figurinos também andam. No começo, o neto veste cores saturadas. Na última conversa, tons neutros e escuros já tomaram conta da roupa e da sala. O avô faz o caminho contrário: a cabana fica mais simétrica e a roupa mais quente e saturada. É por isso que a ligação do aniversário é tão boa, e que a cena seguinte pega tão forte.
Como usar isso fora de um filme
Uma marca, uma campanha ou uma série de posts também conta uma história ao longo do tempo, e os objetos podem fazer o mesmo trabalho ali:
- Escolha um elemento que se repete. Uma forma, um objeto, um número, um canto do quadro que está sempre lá. Quando ele muda, as pessoas percebem.
- Deixe ele contar. Progresso, dias, versões, uma coleção que cresce. Um contador conta uma história sem uma linha de texto.
- Mude devagar. Cor, posição ou tamanho que evoluem de post em post dizem “o tempo está passando” sem dizer.
- Plante cedo. Se um objeto vai importar no final, mostre no começo, nem que seja ao fundo.
Da próxima vez que planejar um trabalho, pergunte: qual é o avião de papel aqui? Que coisa pequena, repetida, pode contar a história por mim?
Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.