Conta

Processo criativo·Bastidores de um curta 2/6·4 min de leitura·

Objetos que carregam a história

Um curta não tem tempo de explicar. Um avião de papel com um número na asa contou para o público quantos dias tinham passado. O que os objetos de Fala, Vô! ensinam a quem conta histórias com imagens.

Felipe RisallahFundador do FRISORead in English

No cinema, os objetos falam. Um trenó em Cidadão Kane, uma bola de vôlei em Náufrago, um pião em A Origem: algumas das coisas mais lembradas da história do cinema são objetos de cena, escolhidos pela direção de arte para carregar o que os personagens não conseguem dizer. Quanto mais curto o filme, mais eles precisam carregar, porque não há tempo para explicar. Descobri o quanto eles podem fazer no meu primeiro curta.

Fala, Vô! conta, em poucos minutos, uma história que dura meses: um neto preso em casa durante a pandemia, mantendo contato com o avô por vídeos. Uma rotina monótona por definição. O problema de um curta é que não há tempo para explicar nada. Então quem explica são os objetos.

Objetos que contam o tempo

Todo vídeo que o neto grava começa com ele dobrando um avião de papel. Cada avião tem um número na asa: quantos vídeos ele já mandou, que é também quantos dias ele está em casa. Ninguém diz “dia 47”. O chão vai se enchendo de aviões, e você entende. Mais tarde, os números continuam, mas passam a contar outra coisa: os dias desde que o avô se foi. O objeto não muda. O que ele conta, sim.

Um quadro branco faz o mesmo com os meses. Ele marca os dias, e os planos que o neto tinha para o ano ficam lá, interrompidos. O celular é o terceiro: grava os vídeos e traz as respostas, e o jeito como ele espera por elas diz mais sobre a ansiedade dele do que qualquer fala.

O mesmo objeto em três momentos. A contagem fala por si.

Objetos que carregam um laço

Outros objetos carregam a relação. O telescópio é como o avô ensinou o menino a enxergar o mundo de outro jeito, e ele volta na última cena, no mirante favorito dos dois. A cítara faz parte da cabana do avô desde o começo, e só no fim você descobre que era assim que ele comemorava o aniversário do neto todo ano; o neto mantém a tradição. O avião de papel também é a porta para o passado: o flashback entra por ele, e o salto no tempo nunca parece estranho.

Tem um detalhe menor de que eu gosto muito. Criança, o neto usa uma camisa azul, o mesmo azul das listras da camisa do avô. Ninguém precisa perceber. Quem percebe, sente.

Figurinos que mudam com a história

Os figurinos também andam. No começo, o neto veste cores saturadas. Na última conversa, tons neutros e escuros já tomaram conta da roupa e da sala. O avô faz o caminho contrário: a cabana fica mais simétrica e a roupa mais quente e saturada. É por isso que a ligação do aniversário é tão boa, e que a cena seguinte pega tão forte.

Como usar isso fora de um filme

Uma marca, uma campanha ou uma série de posts também conta uma história ao longo do tempo, e os objetos podem fazer o mesmo trabalho ali:

Da próxima vez que planejar um trabalho, pergunte: qual é o avião de papel aqui? Que coisa pequena, repetida, pode contar a história por mim?

Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.

Mais da newsletter

Todas as edições →