O público perdoa uma imagem fraca muito antes de perdoar um som ruim. Um plano um pouco sem foco passa; uma voz com ruído, uma música no lugar errado ou um silêncio longo demais tiram qualquer um da história. Por isso o cinema tem departamentos inteiros para isso: diálogo, foley, sound design, trilha e mixagem, cada um com os seus especialistas. No motion design e na publicidade, o som muitas vezes é escolhido na última hora. Ele merece mais.
Na animação 3D, a imagem é feita em silêncio. Por meses, Fala, Vô! não teve som nenhum: os personagens se mexiam e falavam sem voz, e as salas eram mudas. O filme só começou a soar como filme depois que as vozes foram gravadas. É um jeito estranho de trabalhar, e ensina rápido quanto da emoção mora no ouvido.
185 músicas e nenhuma delas
Comecei a procurar música junto com o roteiro, em fevereiro de 2022. Licenciar faixas comerciais estava fora de alcance, então busquei músicas de uso livre, principalmente no YouTube, e montei uma playlist que chegou a 185 músicas.
O primeiro corte com as minhas favoritas não funcionou. As músicas eram bonitas, mas nenhuma carregava o que o filme precisava: solidão, angústia e, no fim, esperança. A playlist não foi perdida, porém. Ela virou o briefing. Dizia, em música, o que eu queria que as pessoas sentissem.
Aí, sorte. Durante a gravação das vozes, no Estúdio de Música da UFES, conheci o André Akira, produtor e pianista. Em março de 2023 começamos uma trilha original, com uma influência clara de Cornfield Chase, do Hans Zimmer, de Interestelar. Uma trilha escrita para o filme faz o que nenhuma faixa encontrada faz: ela respira onde a imagem respira.
Som provisório, depois o som de verdade
Antes do sound design final, fiz uma primeira versão sozinho, com efeitos provisórios e as vozes dos atores, só para sentir o tempo. Depois o Gabriel Tosi gravou os foleys e fez o sound design final: passos, roupa, objetos, os sons pequenos que fazem uma sala virtual parecer habitada. A mixagem veio por último, depois da montagem final, porque todo som está preso a um quadro.
O que isso muda no motion design
- Escolha a música cedo, nem que seja como referência. Uma faixa provisória dá o andamento, e o andamento dá o tempo. Animar em silêncio e pôr a música no fim quase sempre significa refazer os cortes.
- Conte a batida em quadros. A 24 fps, 120 batidas por minuto é uma batida a cada 12 quadros; 90 é uma a cada 16. Durações que são múltiplas da batida parecem intencionais.
- Corte na batida, mexa em volta dela. Uma troca de plano ou de card na batida fica precisa. Um movimento que começa um ou dois quadros antes da batida fica vivo.
- Deixe silêncio. O momento quieto antes do último card é o que faz o último card pousar.
- Uma playlist é um briefing. Se você não consegue explicar o clima que quer, junte músicas até elas explicarem por você.
Da próxima vez, antes do primeiro keyframe, dê play numa música. Deixe ela decidir o tempo. Aí, e só aí, comece a animar.
Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.