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Processo criativo·Bastidores de um curta 4/6·4 min de leitura·

O som chega por último e decide primeiro

185 músicas numa playlist, nenhuma certa, e um pianista conhecido por acaso num estúdio de gravação. O que o som de Fala, Vô! me ensinou sobre ritmo, silêncio e planejamento.

Felipe RisallahFundador do FRISORead in English

O público perdoa uma imagem fraca muito antes de perdoar um som ruim. Um plano um pouco sem foco passa; uma voz com ruído, uma música no lugar errado ou um silêncio longo demais tiram qualquer um da história. Por isso o cinema tem departamentos inteiros para isso: diálogo, foley, sound design, trilha e mixagem, cada um com os seus especialistas. No motion design e na publicidade, o som muitas vezes é escolhido na última hora. Ele merece mais.

Na animação 3D, a imagem é feita em silêncio. Por meses, Fala, Vô! não teve som nenhum: os personagens se mexiam e falavam sem voz, e as salas eram mudas. O filme só começou a soar como filme depois que as vozes foram gravadas. É um jeito estranho de trabalhar, e ensina rápido quanto da emoção mora no ouvido.

185 músicas e nenhuma delas

Comecei a procurar música junto com o roteiro, em fevereiro de 2022. Licenciar faixas comerciais estava fora de alcance, então busquei músicas de uso livre, principalmente no YouTube, e montei uma playlist que chegou a 185 músicas.

O primeiro corte com as minhas favoritas não funcionou. As músicas eram bonitas, mas nenhuma carregava o que o filme precisava: solidão, angústia e, no fim, esperança. A playlist não foi perdida, porém. Ela virou o briefing. Dizia, em música, o que eu queria que as pessoas sentissem.

Aí, sorte. Durante a gravação das vozes, no Estúdio de Música da UFES, conheci o André Akira, produtor e pianista. Em março de 2023 começamos uma trilha original, com uma influência clara de Cornfield Chase, do Hans Zimmer, de Interestelar. Uma trilha escrita para o filme faz o que nenhuma faixa encontrada faz: ela respira onde a imagem respira.

Som provisório, depois o som de verdade

Antes do sound design final, fiz uma primeira versão sozinho, com efeitos provisórios e as vozes dos atores, só para sentir o tempo. Depois o Gabriel Tosi gravou os foleys e fez o sound design final: passos, roupa, objetos, os sons pequenos que fazem uma sala virtual parecer habitada. A mixagem veio por último, depois da montagem final, porque todo som está preso a um quadro.

Cortes na batida. A 120 batidas por minuto, uma batida são 12 quadros a 24 fps.

O que isso muda no motion design

Da próxima vez, antes do primeiro keyframe, dê play numa música. Deixe ela decidir o tempo. Aí, e só aí, comece a animar.

Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.

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