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Processo criativo·Bastidores de um curta 3/6·4 min de leitura·

A cor que conta o tempo

Dois mundos, duas paletas e uma colorização que tira a cor de uma sala aos poucos. Como a cor fez metade da narrativa de Fala, Vô!, e como planejá-la em qualquer projeto.

Felipe RisallahFundador do FRISORead in English

A cor é uma das primeiras coisas que o público sente e uma das últimas que ele percebe. No cinema, ela é planejada muito antes da filmagem: muitos estúdios de animação desenham um color script, uma faixa de quadros pequenos que mostra como a paleta muda de cena para cena, para que a emoção da história possa ser lida só pela cor. Depois, na pós-produção, a colorização termina o trabalho, plano a plano. Veja como isso funcionou num filme meu.

Tire o som de Fala, Vô!, desligue as legendas, e ainda dá para acompanhar quase tudo. Parte disso é a atuação. Uma parte grande é a cor. O filme tem dois mundos, e eles nunca dividem a paleta.

Dois mundos, duas paletas

A sala do neto é digital e fria: cores neutras, pouca saturação, superfícies lisas e nenhuma janela. É a sala de quem está há tempo demais dentro de casa, com uma tela de companhia. A cabana do avô é o oposto: madeira, luz quente, cor densa, um pouco de grão e uma leve aberração cromática, como um filme antigo. Uma é o presente. A outra é memória.

O material ajuda tanto quanto o tom. Madeira acolhe; metal e superfícies lisas tensionam. Os livros de psicologia das cores dizem que tons quentes tendem a passar alegria e neutros frios o contrário. É tendência, não lei, mas é um bom ponto de partida.

Um quadro, três momentos: a memória quente, a sala fria e a cor indo embora.

A cor como relógio

A cor também marca o tempo. Por volta dos quatro minutos, o neto escreve no quadro branco enquanto datas e áudios se acumulam. A imagem começa levemente esverdeada e termina fria. Perto dos seis minutos, no fim da ligação do aniversário, acontece de novo, mais sutil: a colorização sai de uma imagem fria mas ainda saturada, com poucos aviões de papel no chão, e chega a um chão coberto de aviões e a uma imagem quase sem cor.

Esse último visual se chama bleach bypass. Nos laboratórios de filme, era pular parte da etapa de branqueamento e deixar a prata na imagem: menos saturação, mais contraste, sombras mais escuras, mais grão. Ficou popular nos anos 60 e 70, e de novo com O Resgate do Soldado Ryan (1998). Hoje são alguns nós num programa de colorização, e ele ainda se lê como perda.

Uma colorização em camadas

Colorizei o filme no DaVinci Resolve, onde cada correção é um nó. A ordem que segui é um bom hábito para qualquer projeto, mesmo fora do vídeo:

A lógica é simples: primeiro corrigir, depois estilizar. Um look em cima de uma imagem desequilibrada é um filtro. Um look em cima de uma imagem equilibrada é uma decisão.

Planeje a cor como uma história

Num filme de marca, numa campanha ou numa sequência de posts, o mesmo planejamento funciona. Decida quais são os seus mundos (antes e depois, problema e solução, dia e noite) e dê a cada um a sua paleta antes de abrir qualquer ferramenta. Depois decida como a cor muda com o tempo. Uma paleta que esquenta devagar ao longo de um lançamento diz algo que nenhum título consegue.

Experimente no próximo trabalho: duas paletas, uma para onde a história começa e outra para onde ela termina. Depois olhe com atenção os quadros do meio.

Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.

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