A cor é uma das primeiras coisas que o público sente e uma das últimas que ele percebe. No cinema, ela é planejada muito antes da filmagem: muitos estúdios de animação desenham um color script, uma faixa de quadros pequenos que mostra como a paleta muda de cena para cena, para que a emoção da história possa ser lida só pela cor. Depois, na pós-produção, a colorização termina o trabalho, plano a plano. Veja como isso funcionou num filme meu.
Tire o som de Fala, Vô!, desligue as legendas, e ainda dá para acompanhar quase tudo. Parte disso é a atuação. Uma parte grande é a cor. O filme tem dois mundos, e eles nunca dividem a paleta.
Dois mundos, duas paletas
A sala do neto é digital e fria: cores neutras, pouca saturação, superfícies lisas e nenhuma janela. É a sala de quem está há tempo demais dentro de casa, com uma tela de companhia. A cabana do avô é o oposto: madeira, luz quente, cor densa, um pouco de grão e uma leve aberração cromática, como um filme antigo. Uma é o presente. A outra é memória.
O material ajuda tanto quanto o tom. Madeira acolhe; metal e superfícies lisas tensionam. Os livros de psicologia das cores dizem que tons quentes tendem a passar alegria e neutros frios o contrário. É tendência, não lei, mas é um bom ponto de partida.
A cor como relógio
A cor também marca o tempo. Por volta dos quatro minutos, o neto escreve no quadro branco enquanto datas e áudios se acumulam. A imagem começa levemente esverdeada e termina fria. Perto dos seis minutos, no fim da ligação do aniversário, acontece de novo, mais sutil: a colorização sai de uma imagem fria mas ainda saturada, com poucos aviões de papel no chão, e chega a um chão coberto de aviões e a uma imagem quase sem cor.
Esse último visual se chama bleach bypass. Nos laboratórios de filme, era pular parte da etapa de branqueamento e deixar a prata na imagem: menos saturação, mais contraste, sombras mais escuras, mais grão. Ficou popular nos anos 60 e 70, e de novo com O Resgate do Soldado Ryan (1998). Hoje são alguns nós num programa de colorização, e ele ainda se lê como perda.
Uma colorização em camadas
Colorizei o filme no DaVinci Resolve, onde cada correção é um nó. A ordem que segui é um bom hábito para qualquer projeto, mesmo fora do vídeo:
- Entrada. Espaço de cor e ruído, antes de entrar qualquer gosto.
- Primária. Exposição, contraste e balanço de branco da imagem inteira.
- Secundária. Só uma parte: um rosto, um objeto, o céu.
- Look. O estilo do trabalho: a paleta, o clima.
- Acabamento. Grão, nitidez, o último toque de contraste.
A lógica é simples: primeiro corrigir, depois estilizar. Um look em cima de uma imagem desequilibrada é um filtro. Um look em cima de uma imagem equilibrada é uma decisão.
Planeje a cor como uma história
Num filme de marca, numa campanha ou numa sequência de posts, o mesmo planejamento funciona. Decida quais são os seus mundos (antes e depois, problema e solução, dia e noite) e dê a cada um a sua paleta antes de abrir qualquer ferramenta. Depois decida como a cor muda com o tempo. Uma paleta que esquenta devagar ao longo de um lançamento diz algo que nenhum título consegue.
Experimente no próximo trabalho: duas paletas, uma para onde a história começa e outra para onde ela termina. Depois olhe com atenção os quadros do meio.
Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.