No cinema, a etapa que todo mundo esquece é a que mais decide. A pré-produção é onde o visual, o tom e o tamanho de um projeto se definem, antes de existir um único quadro. Estúdios passam meses nela, pesquisando, desenhando e juntando referências, porque todo problema resolvido no papel é um problema que nunca chega à timeline. Motion design e conteúdo para redes têm a mesma etapa, mesmo quando ela dura uma tarde.
Quando alguém pergunta como um trabalho começou, espera ouvir o nome de uma ferramenta. A resposta honesta quase sempre é uma pasta de referências. O programa vem depois, e anda mais rápido, porque as decisões importantes já foram tomadas em outro lugar.
Uma viagem até uma cachoeira
Para Up: Altas Aventuras (2009), a Pixar mandou um grupo de artistas numa expedição de três dias até o Salto Angel, na Venezuela, a cachoeira por trás do Paradise Falls. Pete Docter contou à imprensa brasileira que foram três aviões, um helicóptero, um jipe e muita caminhada, do Monte Roraima até descer o rio de barco.
Ninguém precisa de helicóptero para fazer um post. Mas a ideia vale em qualquer tamanho: os melhores detalhes vêm de olhar para algo real, não de lembrar como aquilo parece.
Uma página para o projeto inteiro
Quando comecei Fala, Vô!, em janeiro de 2022, a primeira coisa que fiz não foi um modelo. Foi uma página. Ideias, imagens de referência para cada personagem e cada cenário e, depois, a lista de planos: tudo morava ali. Parece burocracia. Foi o contrário: trabalhando sozinho, no tempo livre, por mais de um ano, aquela página era a memória do projeto. Toda vez que eu voltava, sabia exatamente onde tinha parado.
Separe as referências pelo que elas ensinam
Uma pilha de imagens ainda não é um board. O board começa a funcionar quando cada referência está ali por um motivo que você conseguiria dizer em voz alta. Eu agrupo as minhas pela pergunta que cada uma responde:
- Movimento. Como isso se mexe? O ritmo de um corte, o jeito como a câmera flutua, como uma multidão anda.
- Composição. Onde as coisas ficam no quadro? Simetria, espaço vazio, o que está perto e o que está longe.
- Cor e luz. Que sensação isso passa? Quente ou frio, limpo ou granulado, dia ou noite.
- Textura. Do que isso é feito? Papel, madeira, metal, vidro, película.
Um hábito mudou o meu jeito de trabalhar: da referência, pegue o movimento, não a aparência. Se você copia as cores e a fonte de algo que gosta, sai uma cópia. Se você pega como aquilo se mexe e como é composto, e traz as suas cores e a sua tipografia, sai algo novo.
Estrutura antes do roteiro
Para a história, usei o Story Circle, popularizado por Dan Harmon: oito etapas que servem surpreendentemente bem a um curta. Você, precisa, vai, busca, encontra, paga, volta, muda. Em Fala, Vô!, um neto se adaptando à pandemia precisa manter contato com o avô. Ele começa a gravar vídeos enquanto dobra aviões de papel, transforma isso em rotina, e aí as respostas param de chegar. Com as oito etapas na página, toda cena precisava responder a uma delas.
O mesmo círculo funciona para um filme de marca de trinta segundos, um carrossel ou um lançamento. Para quem é, do que essa pessoa precisa e o que está diferente no final?
Corte cedo, corte no papel
A primeira versão da história tinha um cachorro fazendo companhia ao neto. Durou poucos dias. Animar sozinho um animal de quatro patas teria consumido meses, e o cachorro não mudava a história. Cortar no papel não custou nada. Cortar depois da modelagem teria doído.
O storyboard foi pelo mesmo caminho. Tentei desenhar um e desisti: desenho não é o meu forte. No lugar, escrevi uma shotlist, uma tabela com uma linha por plano: posição de câmera, movimento de câmera, onde o personagem está, o que ele faz, diálogo, status, render, observações e referências. Ela fez o trabalho do storyboard para quem pensa em listas. Use o método que cabe nas suas mãos, não o que os livros esperam.
Da próxima vez que você for abrir o programa primeiro, tente o contrário. Vinte minutos juntando referências, separadas pelo que ensinam. O primeiro keyframe vai chegar mais rápido, e vai ser seu.
Este texto vem do TCC de Felipe Risallah sobre a produção do curta 3D Fala, Vô! (Cinema e Audiovisual, UFES, 2023). Mais sobre o filme no link.